Agora, assim que me lembro, e que as conversas de café a isso vão parar, eu acho que nunca acreditei no Pai Natal. Que existisse a sério. Não participo nas conversas de café, e saio antes de todos. Para quê? Uma diz que quando era pequena acreditava no Pai Natal. Eu penso até em entrar na conversa, mas não tenho muito para dizer. No fundo não me queria lembrar desse tempo tão distante. A verdade é que eu sempre soube de onde vinham as prendas. Sabia sempre que era dos meus tios que recebia o melhor, mesmo que o melhor para mim fosse apenas o comum para eles. Era o meu tio quem se vestia de Pai Natal. E todos sabíamos que era ele. Sem surpresas. Sem fantasias.Fala-se muito. Mesmo muito, eu diria demais. Muita gente agora diz que o Natal é uma farsa. Que é uma época de hipocrisia. Se acredito? Sim, claro. Cada vez mais. Mas não sei se o dizem porque está na moda dizer que o Natal não presta, ou se realmente sabem o que é sentir a hipocrisia das pessoas no Natal. Das que são realmente próximas ou deveriam ser. Às vezes penso que as pessoas aderem a opiniões por modas. E agora é moda dizer que o Natal é hipocrisia.
O que faz do Natal uma hipocrisia são as pessoas. Que se chegam à frente uma vez por ano. Ou que estão lá por estar, fazem parte da mobília, mas que só naquela altura se mostram como luz.
Os meus Natais eram assim. As pessoas estavam na mobília. E no Natal mostravam todo o amor e carinho, escondendo assim um ano inteiro de, quer desprezo, quer de outras coisas mais graves. Acho que era um escape. Mas eu parti as pessoas da mobília. Parti com todas, e agora posso sentir-me triste porque não existe uma mesa farta, recheada de doces e coisas boas que me fazem engordar sempre no fim do ano. Mas sinto-me aliviada dessa ausência que se torna falsa presença uma vez por ano. Ou duas.
Acredito que algumas pessoas conseguem viver um espírito de Natal. Que no fundo é um espírito de convívio, de partilha que está para lá da prenda mais cara que se possa comprar. Sorrisos aquecidos por uma ternura constante, e que nessa noite são apenas o espelhar de toda uma vida de luta e partilha em conjunto. E no fundo isto nada tem a ver com o Natal propriamente dito, nem com o menino Jesus, tem a ver, sim, com o que somos TODOS OS DIAS.
Desejei um feliz Natal a algumas pessoas. Sentido. A outras desejei apenas um Feliz Natal a despachar, porque retribuir as "atenções" é de bom tom.
Mas as únicas que me ficam no coração foram aquelas a quem perdi horas para lhes desenhar um cartão apenas a pensar nelas. E foram um punhado apenas. E ainda bem, pois sei que estão ali todos os dias. E que são assim todos os dias.
O resto...
O resto...















































